domingo, 15 de maio de 2011

Os responsáveis pela crise fazem espuma para desviar o foco do problema real

Delfim Netto


Os bancos centrais dos países desenvolvidos não podem furtar-se da responsabilidade pela tragédia que desempregou 30 milhões de pessoas que ganhavam a vida honestamente em todo o mundo e, ao mesmo tempo, insistir em ensinar como devem se comportar as economias dos países tratados como emergentes.

Foi a cegueira que se apossou desses organismos que permitiu a crise financeira mundial, que ainda parece longe de esgotar seus efeitos. Eles foram incapazes de ver o que os agentes do sistema financeiro estavam fazendo. Sua miopia os levou a acreditar que o mercado financeiro se auto-organizava e que era moralmente inatacável.
Em vez de se autoflagelar pelo fracasso em evitar a queda do crescimento nas economias “submergentes”, dedicam-se agora a vigiar o crescimento mais robusto das economias emergentes, alertando para os riscos da inflação. O Brasil, por exemplo, sabe que é preciso não se exceder nos incentivos para acelerar o crescimento econômico, embora estejamos crescendo pouco. Só mesmo muita má vontade para acreditar, no entanto, que nosso crescimento hoje (de menos de 5% do PIB anual) é exagerado.
É certo que enfrentamos pressões inflacionárias vindas de fora, produzidas, aliás, pela ação desses bancos centrais que agora se dedicam a fazer espuma para retardar a cobrança pelas falhas terríveis que cometeram todos esses anos. Foram eles que mantiveram as taxas de juro exageradamente baixas, permitiram que os fundos hedge fizessem alavancagens gigantescas, que os bancos se valessem das mesmas práticas e especulassem nos mercados de commodities, pressionando os preços nos países emergentes e produzindo a inflação que todos precisam combater.
Ao produzir a espuma, estão novamente desviando a atenção do verdadeiro problema que é a volta da especulação desenfreada no mercado de commodities, que aumenta a volatilidade e estimula o aumento dos preços, especialmente dos alimentos.  Isso nos deixa outra vez à mercê de uma dessas bolhas que periodicamente ameaçam a economia global. E agora vêm nos dizer que devemos reduzir o crescimento para conter a inflação que eles próprios produziram.
Não há justificativa para o Brasil passar a ser alvo preferencial das recomendações ou críticas de organismos internacionais como o FMI e o Banco Central Europeu, pois estamos na outra ponta do processo especulativo que afeta os preços de alimentos. Somos o país emergente que mais contribuiu na década para o aumento da oferta da produção básica de alimentos nos mercados mundiais, o que, obviamente, é uma ajuda importante para a estabilidade dos preços.
Felizmente, essas recomendações externas têm sido ignoradas, e de outra parte não prevaleceram os ataques internos à condução da política de controle da inflação que o governo vem praticando. Desfez-se a intriga que o Banco Central brasileiro tinha jogado a toalha, esquecido de elevar a taxa de juro desejada pelos falcões do mercado financeiro, para partir para o controle da inflação usando apenas medidas macroprudenciais.
Tratava-se, também, de mais espuma, pois o Banco Central nunca se propôs deixar de utilizar os juros como instrumento de combate, mas sim usar medidas macroprudenciais em condições específicas (como foi feito no caso dos prazos de financiamento de automóveis). A autoridade monetária sempre disse que continuaria a aumentar a Selic de forma cuidadosa para obter os resultados desejados num prazo um pouco mais longo do que era comum: em lugar de limitar a 12 meses o prazo para alcançar a meta inflacionária, o Banco Central está usando praticamente 24 meses.
É justo reconhecer ainda que há um sério esforço de parte do governo na execução da política fiscal, reduzindo o ritmo do crescimento das despesas de custeio e de transferências. Com isso reduz o custo do ajuste para o Tesouro e minimiza a queda de produto necessária para atingir a meta inflacionária.
Essa política é correta, diante do choque externo e das incertezas sobre a demanda interna. O objetivo é chegar ao fim de 2012 com a inflação de volta à sua meta. Não significa que se abandonou a política de combate à inflação, que tem o suporte completo da presidenta Dilma. É uma política mais cuidadosa para atingir aquele objetivo sem reduzir o crescimento da economia de maneira extravagante. E é necessária e adequada porque tem um custo social menor do que se tem com o uso puro e simples da taxa de juros.

Fonte: Carta Capital

segunda-feira, 9 de maio de 2011

'Modelos de mercados perfeitos criaram falsa segurança e contribuíram para crise global'

Do Estadão

No início de abril, o economista Kenneth Rogoff, da Universidade de Harvard, participou de um encontro com o nome instigante de "Crise e Renovação: Economia Política Internacional na Encruzilhada", organizada pelo Instituto para o Novo Pensamento Econômico (Inet, na sigla em inglês), patrocinado pelo bilionário e megainvestidor George Soros. O seminário, que visava discutir as transformações no pensamento econômico depois da crise global, foi realizado no mesmo hotel em que aconteceu o histórico encontro de Bretton Woods de 1944, no qual foi desenhada a arquitetura financeira internacional do pós-Guerra.

Ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), e um dos economistas mais prestigiados da atualidade, Rogoff é o autor, junto com Carmen Reinhart, do livro Oito Séculos de Delírios Financeiros: Desta Vez é Diferente, que faz um levantamento de 800 anos de crises econômicas e financeiras, e é considerado um marco na literatura econômica pós-crise global.

Apesar de ser um economista que frequentemente se posiciona a favor da ortodoxia, Rogoff critica com firmeza os modelos econômicos que pintam um mundo de mercados perfeitos, e nos quais não existem as imperfeições do sistema financeiros, que criam bolhas como a que causou a recente crise global. Ele acha, inclusive, que esse tipo de pesquisa acadêmica contribuiu para que as autoridades econômicas fechassem os olhos para a imensa bolha financeira e imobiliária que se irradiou pelo mundo rico, a partir dos estados Unidos.

Rogoff defende um novo papel para os BCs, em que a vigilância sobre as bolhas se some à atividade tradicional de controlar a inflação. Mas ele avisa que não vai ser nada fácil, já que a tendência histórica, detectada em Desta Vez é Diferente, é de que as autoridades relaxem ainda mais as regras em tempos de euforia. A seguir, a entrevista:

A crise econômica global e a Grande Recessão derrubaram pontos importantes da macroeconomia?
Sim. A crise minou uma ferramenta importante e central: os modelos macroeconômicos que tanto economistas como gestores de bancos centrais utilizam. Esses modelos pressupõem um grau muito alto de desenvolvimento financeiro, tangenciando a perfeição. Eles pressupõem que os mercados financeiros funcionam de forma muito eficiente e perfeita, num sentido muito profundo. E tipicamente se pressupõe que todas as fricções, todas as imperfeições, estão no mercado de bens e de trabalho.

Houve uma idealização do funcionamento dos mercados?
Sim. No extremo, por exemplo, (Finn Erling) Kydland e (Edward) Prescott ganharam o prêmio Nobel (de 2004) pela sua teoria do ciclo de negócios (ciclo econômico) real, que essencialmente pressupõe que tudo é perfeito na economia, que nós vivemos num mundo de absoluta eficiência. Um mundo no qual não existe nenhum monopólio, nenhuma imperfeição financeira, não há nem mesmo imperfeições no mercado de trabalho. É muito bonito, mas é profundamente oco em termos empíricos.

E por que os modelos macroeconômicos em geral partem de pressuposições irrealistas?
O problema é que, quando você quer olhar para modelos mais complexos, tudo rapidamente se torna muito mais complicado. O que nós realmente entendemos em Economia, num nível profundo, e o que dá base a todos os nossos modelos, é que a demanda é igual à oferta. E, se não for, o preço se move até que a demanda fique igual à oferta. Bem, a crise financeira, o desemprego, e diversas outras coisas acontecem porque os preços não se movem para fazer com que a demanda se iguale à oferta. Quando os salários são muito altos, as pessoas ficam desempregadas. E, dessa forma, o preço não cai imediatamente para tornar a demanda igual à oferta. E, assim que a demanda não se iguala à oferta, nós economistas ficamos impressionantemente sem ferramentas, e não sobra muito nos modelos matemáticos.

A confiança nesses modelos foi uma das causas da crise global?
Acho que sim, porque eles deram uma sensação falsa de segurança. O Alan Greenspan (ex-presidente do Federal Reserve, Fed, banco central americano) saiu por aí dizendo para todo mundo para não se preocupar com todos aqueles derivativos (operações financeiras) complexos porque, na verdade, eles estavam tornando os mercados financeiros mais eficientes. Eles estavam aproximando o mundo real e os mercados financeiros do mundo idealizado de Robert Lucas (prêmio Nobel de 1995) de Kydland, de Prescott, de (Kenneth) Arrow (prêmio Nobel de 1972) e (Gérard) Debreu (prêmio Nobel de 1983)e de todos os seus maravilhosos modelos canônicos.

Como isso aconteceria?
Ele disse que (os derivativos) estavam apenas movendo os mercados financeiros na direção certa, estavam ajudando a pulverizar o risco, a tornar o mundo mais seguro, menos volátil e menos arriscado. Greenspan estava pensando em termos dos modelos acadêmicos convencionais, e não em termos de modelos nos quais existe má informação, e nos quais as pessoas trapaceiam, não pagam o que devem. A história mostra que esse tipo de coisa acontece sempre. Aliás, antes da crise, havia toda uma indústria de análises sobre a Grande Moderação, e por que ela estava acontecendo.

O sr. poderia explicar melhor o conceito de Grande Moderação?
A Grande Moderação era a ideia de que, graças a melhores mercados financeiros, à melhor política monetária e à globalização, o mundo tinha se tornado um lugar menos volátil, no qual as crises eram menores. Assim, o consumo, a produção e todas as variáveis macroeconômicas, e particularmente o desemprego, também eram menos voláteis. Esse mundo mais seguro, por outro lado, poderia crescer mais rápido, devido ao fato de que havia essa maior segurança. Mas a Grande Moderação foi uma total ilusão.

Os economistas tiraram as lições certas da crise?
É cedo demais para dizer. A maior parte dos macroeconomistas mais velhos continuou a fazer exatamente o mesmo trabalho que fazia antes, sem nenhum sentido de autoconsciência. Porém, se você olhar os pesquisadores mais jovens, entre vinte e tantos e trinta e poucos anos, eles estão dispensando totalmente os velhos modelos e buscando algo novo.

E o que há de novo?
Entre os jovens pesquisadores, está todo mundo tentando introduzir (nos modelos macroeconômicos) fricções e imperfeições do mercado financeiro, de uma maneira construtiva. Mas não significa que alguém já tenha de fato chegado lá.

E a economia comportamental, que busca incluir as características da psique humana?
A economia comportamental é excitante, mas neste momento é uma disciplina com 40 modelos diferentes para 40 diferentes fenômenos. A corrente principal da Economia, como eu disse, tem a oferta igual à demanda como uma estrutura unificadora. E a economia comportamental não tem algo assim. Ela ainda tem muito poucos sucessos reais em termos de achar um arcabouço econômico que possa substituir o atual.

A crise levou a uma revisão do papel dos bancos centrais?
Agora há a ideia de que o banco central seja contracíclico. Então, por exemplo, se a economia está crescendo velozmente, ele pode querer apertar a regulação, de forma que não se tenha tanto aumento de crédito e se evitem bolhas. É a regulação macroprudencial. Faz muito sentido, mas é difícil de fazer. No Desta Vez é Diferente, Carmen e eu mostramos que, historicamente, a coisa vai na direção contrária. Quando há um boom, a regulação é relaxada - é um comportamento humano muito comum.

E quanto à regulação financeira em geral? O que mudou com a crise?
Certamente precisamos de mais independência para os legisladores, de partilhar mais informação, de mais regulação internacional. Mas o que se vê é que a Lei Dodd-Frank (de 2010, que visa reformular o sistema financeiro americano) é um esforço para manter exatamente o mesmo sistema que os Estados Unidos tinham antes da crise, com pequenas modificações para torná-lo um pouco melhor. Mas não está claro que isso seja suficiente.

O que está faltando?
Eu acho - e muitos acadêmicos argumentam na mesma direção - que os bancos deveriam ser obrigados a se financiar muito mais com capitalização (emissão de ações), e menos com captação por meio de bônus. A maioria dos acadêmicos diria que o novo acordo de Basileia (que estabelece parâmetros globais para regulação de bancos) pede um aumento de capitalização que não chega nem perto do que seria suficiente. Mas os reguladores são muito cautelosos quanto a mudar qualquer coisa. Eles foram convencidos pelo setor financeiro de que todo o crédito ia entrar em colapso, caso os bancos tivessem que levantar dinheiro com mais emissões de ações em vez de dívida. É um equívoco total.

O Brasil está num momento complexo de sua política econômica, com medidas macroprudenciais para ajudar no combate à inflação, controles de capital, intervenções no câmbio. Qual a sua visão?
Bem, não tenho muito conhecimento de causa, mas a minha sensação, falando com amigos no Brasil e lendo sobre o País, é que permanecem problemas importantes, como o governo ser grande demais e entraves no mercado de trabalho e em outros mercados, que impedem a economia de operar tão eficientemente quanto deveria. A grande pergunta é se o novo governo vai se mover na direção certa. O primeiro Lula fez isso, o segundo Lula, não. Quanto aos pontos que você ser referiu, minha impressão é que (o governo) está se debatendo um pouco, que muitas daquelas medidas não são efetivas mas. Por outro lado, é correto o instinto da equipe econômica de que, por causa de todos os fluxos de capital e do boom de crédito, eles deveriam se preocupar com a possibilidade de uma crise financeira em alguns anos. Eles estão certos de ser cautelosos, e o instinto de usar políticas macroprudenciais é muito bom.

domingo, 3 de abril de 2011

Pinturas de Fernando Botero

O espaço Caixa Cultural Brasília apresenta a mostra Dores da Colômbia – Botero.

Trata-se de exposição de telas do pintor Fernando Botero. O artista colombiano doou a coleção ao governo de seu país para que a violência que assola os colombianos, retratada em suas telas, fosse levada ao conhecimento do mundo.


A coleção faz alusão direta à violência que a Colômbia tem sofrido nas últimas décadas, por consequência da disputa entre grupos guerrilheiros, políticos e paramilitares, pelo controle de terras e do tráfico internacional de drogas, em uma guerra que já matou dezenas de milhares de pessoas e já fez deslocar, forçadamente, mais de um milhão e meio de colombianos dentro de seu próprio país.
O material de sua triste leitura são massacres reais noticiados em todo mundo. Aprisionamentos, corpos abatidos após o combate, lágrima e sangue. O silêncio domina e o pesar é resignado. As cenas são como flagrantes individuais escolhidos em meio a uma tragédia que está por toda parte e cuja extensão não é possível alcançar. Sobre suas vítimas Botero lança suas vibrantes cores, criando um contraditório e dramático material. Aori Produções Culturais

Como não era permitido tirar fotos, as imagens que seguem foram retiradas da internet, mas são algumas das que estão disponíveis na exposição.



Sou contra a arte como arma de combate. Mas, em vista do drama que atinge a Colômbia, senti a obrigação de deixar um registro sobre um momento irracional de nossa história. (Botero)
(Masacre - 2000)

(Un consuelo - 2000)

(Masacre de Ciénaga Grande - 2001)

(Masacre en Colombia - 2000)

sábado, 2 de abril de 2011

Bancos na capital federal


Já tem algum tempo que planejo tirar umas fotos de alguns bancos públicos da capital federal. Acho interessante os desenhos arquitetônicos deles.

Finalmente, eis algumas fotos capturadas por este aprendiz de blogueiro.

Banco do Brasil - fundado em 12 de outubro de 1808




Caixa Econômica Federal - fundada em 12 de janeiro de 1861





BNDES - criado em 20 de junho de 1952



O Banco Central - criado em 31 de dezembro de 1964



quarta-feira, 30 de março de 2011

Material de Aula - UnB

A quem possa interessar, postaremos ao longo deste semestre boa parte do material estudado no doutorado em economia da UnB.
Criamos um campo denominado “Material de Aula”, localizado do lado direito desta página.
Em alguns casos, outros textos poderão ser disponibilizados para complementar o que os professores estão indicando no curso.
Nesta primeira leva, materiais de Métodos Matemáticos em Ciências Sociais, Macroeconomia I e Estudos Avançados em Teoria Econômica serão socializados ao longo do semestre.
Boa leitura!

domingo, 20 de março de 2011

E assim é o samba...

Um pouco de samba para alegrar a semana de todos.

As músicas dos sambistas abaixo são obrigatórias nas vitrolas que prezam por um bom ziriguidum.



terça-feira, 8 de março de 2011

Dias das Mulheres

É um tanto complicado um ser inferior falar de algo acima dele.

É um tanto atrevimento buscar palavras, seja lá de onde for, para elogiar o que por definição já é perfeito.

Porém, o pior é não tentar e pensar que nada precisa ser dito.


A mulher consegue ser tão dominante que tem um dia dedicado somente a ela, mas consegue ser tão encantadora que não nos deixa esquecê-la nem um dia sequer do ano.

O ser feminino tem a capacidade de derrubar montanha, de mover pedras e de fazer o diabo com os seres inferiores (nós homens, claro!).

E para isso faz uso de ameaças, coerção, armas...? Não! Elas não precisam disso. Um olhar nos faz parecer crianças babando por um bombom, um sorriso nos leva à lona.

A mulher nos ensina que o ‘nós’ pode ser melhor do que o ‘eu’.

Quando estamos aconchegados em seus braços, sendo chamados de marido, de pai, de filho vemos, então, o tamanho de nossa fraqueza e dependência de um ser tão especial.

Enfim, a mulher nos inspira a viver!


Uma mulher que é feita de música
Luar e sentimento, e que a vida
Não quer, de tão perfeita
(Vinicius de Moraes)