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sábado, 17 de março de 2012

Uma visita do mestre Cartola

 
Estávamos lá Cartola e eu caminhando pelas ruas de uma pequena cidade do interior do Pará, onde eu vivi boa parte dos meus ainda poucos anos. Dois bons amigos falando sobre música, principalmente.

Eu, claro, admirando o grande mestre e perguntando do contexto que algumas de suas canções (leia-se poesias) ganharam forma. A simplicidade e a humildade do mestre impressionavam. Era mais um cidadão comum caminhando pela rua. Às vezes aparentava saúde debilitada, com uma tosse aqui, uma paradinha pra respirar ali, mas em outros momentos mostrava-se com vigor juvenil empolgante.

Ao passar em frente a casa onde eu morava, encostamos para falar com alguns parentes que ali estavam. “Esse é o meu amigo Cartola”, apresentei. Quem já havia ouvido falar alguma vez em Cartola ficou estarrecido, nesse caso só uma tia teve essa reação.

O motivo maior de eu ter levado o Cartola àquele grupinho da família foi que lá no meio estava meu avô, igualmente com muitos anos de vida e cheio de história para contar. Achei que seria interessante ouvir a troca de causos dos dois.

Percebi que o mestre Cartola também queria conversar com o avô, mas sua primeira investida seria algum comentário proibido para menores. Perguntei: “Você vai falar alguma sacanagem?”. Num olhar moleque, Cartola expressou seu ‘sim’, aí decidimos seguir caminho e voltar depois para a conversa com o outro mestre, o meu avô.

Bem, ficou um pouco de frustração por acordar sem que a conversa do Cartola com meu avô tenha ocorrido, porém valeu a companhia do mestre.


sábado, 27 de agosto de 2011

Martinho da Vila: Um boêmio muito família

Por Paulo Totti

"Menina moça vai passear/, vai passear, iá, iá./ Quer rapazinho pra acompanhar./.../ Tá namorando, já quer noivar, iá, iá." Com essa samba, sincopado e malemolente, ritmado por cavaquinho, palmas, surdo, caixa de fósforos e surpreendentes, inovadores, silêncios, Martinho José Ferreira quase se classificou para as finais do festival da canção da TV Record em 1967, numa disputa com "Ponteio", de Edu Lobo e Capinam (1º lugar), "Domingo no Parque", de Gilberto Gil (2º), "Roda Viva", de Chico Buarque (3º) e "Maria, Carnaval e Cinzas", de Luiz Carlos Paraná, interpretado por Roberto Carlos (4º).
Poucos recordam o fim da história da ingênua menina-moça cantada por um obscuro sargento do Exército, apenas conhecido nas rodas de samba dos subúrbios do Rio. Pouco resta também da música que entrou em seu lugar, "Beto Bom de Bola", de Sérgio Ricardo, uma homenagem a Garrincha. Desta, memoráveis são a vaia da plateia na noite final do concurso e a reação do injustiçado compositor, que quebrou o violão no palco e arremessou-o sobre o público. Inesquecível mesmo, e ícone de criatividade da imprensa sensacionalista da época, foi a maliciosa manchete no dia seguinte do "Notícias Populares", de São Paulo: "Violada em pleno auditório".
Martinho ainda usava bem lustrados sapatos. E não tinha o "da Vila" no sobrenome. "Nada a ver com a Vila Militar, não servi em Deodoro. Só estive por perto, em Realengo, na Escola de Instrução Especializada de Sargentos do Exército. Lá me formei técnico em contabilidade. O 'da Vila' é mesmo por causa da escola de samba de Vila Isabel."
Em música você pode ensinar tudo, menos o ritmo. O ritmo do samba, do jazz, está na ginga, na mente. É o chão e a semente
Hoje, ele só anda de sandálias, o dedão aparecendo, solto no mundo. Aos 73 anos de idade e 44 anos depois do festival, Martinho está bem de vida e de bem com a vida. Preterido no festival, esse compositor de recursos criativos vários - partido-alto, ciranda, frevo, samba de roda, capoeira, bossa nova, marchinha de Carnaval, lundu, calango, samba-enredo, toada, ritmos africanos - já teria o nome artístico na capa de seu primeiro LP ("Martinho da Vila", 1969), com sucessos como "Casa de Bamba" ("Na minha casa todo o mundo é bamba./ Todo mundo bebe,/ todo mundo samba..."), "Quem É do Mar" ("Quem quiser saber meu nome/ não precisa perguntar./ Sou Martinho lá da Vila,/ partideiro devagar") e "Pequeno Burguês", um quase hino da rebeldia estudantil que ocupava as ruas contra a ditadura: "Felicidade, passei no vestibular,/ mas a faculdade é particular./.../ Livros tão caros, tantas taxas pra pagar./ Meu dinheiro muito raro/ alguém teve que emprestar". E foi o segundo sambista a atingir a marca do milhão de discos vendidos com o CD "Tá Delícia, Tá Gostoso", 1995 - o primeiro foi Agepê, em 1984.
Martinho caiu no gosto de um público que não só consome, decora e aplaude as mil canções gravadas (48 álbuns) como admira sua simpatia e a interpretação maneira, única, inconfundível, de estilo apenas um pouco mais musical do que seu jeito normal de falar. Em verdade, à mesa de restaurante ou botequim, à fala de Martinho parece que só faltam as rimas para que se transforme em canto.
Ele já viajou o mundo a trabalho, tem casa "num lugar meio Miami" da Barra da Tijuca, escritório na Zona Sul, onde cuida dos direitos autorais e contratos para shows, e comprou os 40 hectares da fazenda onde nasceu, em Duas Barras, na região de Teresópolis e Nova Friburgo, a 170 quilômetros de Vila Isabel. É o Sítio do Cedro, que chama de "meu off-Rio". No centro da cidade de dez mil habitantes, ganhou até uma estátua. E, no dia 6, na Bienal do Livro, que será inaugurada na quinta-feira no Rio, vai lançar seu 11º livro: "Fantasias, Crenças e Crendices", pela editora Ciência Moderna. Ele entende dessas coisas, pois é o próprio exemplo de sincretismo do povo brasileiro. Filiado ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), expõe no peito um escapulário com a imagem do Sagrado Coração de Maria e cumpre todo o ritual da Semana Santa na igreja de Duas Barras, desde a Missa do Lava-Pés da quinta-feira, a Paixão e Adoração da Cruz, de sexta, à Ressurreição no domingo de Páscoa.
Reprodução/ReproduçãoNa capa de seu mais recente CD, Martinho da Vila no colo dos filhos músicos: Juliana( à esquerda), Maíra, Mart’nália, Analimar e Tunico
O compositor entra no restaurante com seus passos lentos, calça jeans e camiseta de gola careca sob a camisa social desabotoada. Os clientes o reconhecem, acenam, ele retribui com sorriso largo, "bom apetite!", e vai para os fundos do salão envidraçado, onde o repórter, o fotógrafo Léo Pinheiro e a assessora de imprensa Rejane Guerra o esperam. Dali se vê o sol esparramado sobre o verde da Quinta da Boa Vista, no bairro carioca de São Cristóvão. O prédio neoclássico, bem defronte à entrada do Jardim Zoológico, foi capela da residência de d. Pedro I. Martinho escolheu o restaurante porque é um lugar "sossegado, bonito e de boa comida", necessitando apenas que a prefeitura tenha pela relva que o circunda o cuidado que, segundo a lenda, o imperador dedicava às escravas e beatas com quem se encontrava na sacristia, onde hoje está a cozinha. "O dono, o Manuelzinho, um português boa gente, é meu amigo. Venho tanto aqui que acham que sou sócio."
Já é agosto, quase setembro, e a Escola de Samba Unidos de Vila Isabel prepara o desfile para o Carnaval de 2012. E esse é o assunto abre-alas deste "À Mesa com o Valor". O pessoal da escola pensou em homenagear Angola e Martinho deu a ideia de "fazer uma coisa baseada na história e na música de Angola em junção com a brasileira". O enredo já tem nome, "O Canto Livre de Angola, Samba lá e Sembo cá" - sembo é o ritmo de Angola. "Só dei algumas sugestões. O resto é por conta da carnavalesca muito competente Rosa Magalhães, do pesquisador Alex Varela e dos compositores. Não vou concorrer ao samba-enredo. Já fiz no ano passado o samba em homenagem ao centenário de Noel Rosa, agora vou dar um tempinho."
Martinho colabora de forma igualmente eficaz. Acaba de voltar de Angola, onde foi contar às autoridades de lá os planos da Vila Isabel. "Só fui abrir um pouco as portas. Eles não se comprometeram com o patrocínio, mas vão dar apoio. Agora a administração da escola pode continuar os contatos, procurar patrocínio com empresas brasileiras que atuam em Angola."
Há mais de 30 anos Martinho da Vila tem afinidades com o Movimento Popular para Libertação de Angola (MPLA), hoje no poder na antiga colônia portuguesa. No início foi solidariedade racial e política, hoje é relação pessoal suficiente para avalizar pedidos de colaboração como os da comunidade de Vila Isabel.
'Kizomba' para vencer hoje teria de ser modernizado. Antes, o desfile era mais espontâneo, mas pecava na organização
Em 1980, Martinho promoveu a apresentação de artistas angolanos no Rio e em São Paulo, num projeto que chamou de O Canto Livre de Angola. Um ano antes, à frente do projeto Kalunga, brasileiros é que foram a Angola. "Foi quase todo mundo." Chico Buarque, Djavan, Elba Ramalho, Quinteto Violado, Olivia e Francis Hime, Edu Lobo, Dona Ivone Lara. "Mais os que já descansaram: Dorival Caymmi, João Nogueira, João do Vale..." Um pouco disso estará na Sapucaí.
- Fevereiro está aí. Dá tempo?
- Sempre dá, né? Algumas escolas já escolheram seu samba. Na Vila as apresentações serão em setembro e a escolha, em outubro. Na noite do desfile vai estar tudo pronto, pode confiar.
Ricardo, o jovem maître do Restaurante Quinta da Boa Vista se aproxima. Martinho pede bolinhos de bacalhau para fazer lastro e se interessa pelo vinho. Branco ou tinto? Não há acordo na mesa e Martinho brinca: "Vamos ter um impasse aqui, a gente vai acabar não bebendo nada". O maître resolve arbitrar e traz um chardonnay argentino, Catena, 2009. "Não conheço o branco deles, mas se é Catena é de boa família", diz o repórter. Martinho concorda, com ironia: "Se é de boa família..."
- Por falar nisso, você é muito família. Já formou quatro. Tem oito filhos de quatro mulheres e sete netos. Cinco dos filhos estão na música, você os reuniu este ano no álbum "Lambendo a Cria". Consegue dar o nome de todos eles e das respectivas mães, sem hesitação?
Acervo pessoal/Acervo pessoalO sargento burocrata Martinho José Ferreira deixou a escrivaninha no Quartel-General para, como civil, comandar o Carnaval na Marquês de Sapucaí
O sorriso fica ainda mais aberto e o orgulhoso pai escala seu time de filhos músicos com as três "relações estáveis" que manteve na vida, antes de casar-se há 18 anos, papel passado e na igreja, com Clediomar Corrêa Liscano, uma gaúcha branca de São Borja, que ele chama de Cléo e também de Preta. O casamento rendeu a Martinho o título de cidadão honorário de São Borja e a Cléo, o de cidadã bibarrense (o gentílico Duas Barras).
Anália é mãe de Mart'nália, "que já está na carreira, toca violão, contrabaixo, canta, dança, tira som até de xícara de cafezinho", e de Analimar, cantora. Lícia Maria, a Russa, ex-presidente da Unidos de Vila Isabel, é mãe da cantora Juliana e de Tunico Ferreira, percussionista, compositor, cantor. E a bailarina Rita, ex-porta-bandeira do Salgueiro, é mãe de Maíra. Há um sexto músico, o mais velho, Martinho Antônio, filho de Anália, que já atuou como vocalista, mas preferiu a retaguarda e é diretor-artístico da gravadora Biscoito Fino. "Procurei que todos estudassem música. Maíra foi mais longe, é pianista clássica, e agora estreou como compositora e cantora de MPB".
- E o que você toca?
- Só instrumentos de percussão. Não sou músico de harmonia. Poderia ter estudado violão dois meses, aprender três acordes para fazer tipo e, que ninguém nos leia, falar que sou músico como muitos por aí. Dizem até que o Elvis Presley só sabia dois acordes.
Maíra não usa o sobrenome Ferreira, preferiu o da mãe, Freitas, mas Martinho está presente no CD da filha, num dueto em que interpretam "Disritmia" ("Eu quero ser exorcizado/ pela água benta desse olhar infindo./ Que bom é ser fotografado,/ mas pelas retinas desses olhos lindos./.../ Vem logo! Vem curar teu nego/ que chegou de porre lá da boemia!")
- Nessa faixa você parece até melhor, mais empenhado, do que quando gravou "Disritmia" pela primeira vez.
Guilherme Pinto/Extra/Agência O Globo/Guilherme Pinto/Extra/Agência O GloboCom Nathália Guimarães, rainha da bateria da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, 2009
- É a emoção de gravar com a filha, né? Gravamos na primeira passada. Maíra é um caso raro, um ET. Fez conservatório, faculdade de música na UFRJ, só tocava clássicos. De repente começou a cantar e compor música popular. Em geral, o pessoal do erudito não consegue tocar o popular. A música ritmada, para o erudito, é muito difícil. Ele aprende "tá-tá-tá" [cantarola]. Se tem que fazer "tá-tatá-tá" [batuca na mesa e cantarola com ritmo], aí ferrou. Em música você pode ensinar tudo a uma pessoa, menos o ritmo. O ritmo está no sangue, como eu digo no samba em homenagem a Ivone Lara que Mart'nália gravou: "Samba tá na ginga, tá na mente, é o chão e a semente". Maíra foi criada no samba e conhece os dois lados. Eu falo 'vamos improvisar?' Ela improvisa. Os pianistas clássicos dificilmente improvisam, têm um vício: dependência da partitura. Os grandes do jazz improvisam porque o ritmo está no DNA. O ritmo deles, até o do rock, veio da África, como o nosso... É bom isso, hein?
Martinho não se refere mais às raízes africanas, mas ao vinho. Ergue a taça. "Saúde."
O sétimo e o oitavo filho são com Preta Cléo, mãe carinhosa e rigorosa, a ponto de comprar um bafômetro para testar a volta de Preto - "agora não é apelido, é o nome mesmo" - das baladas. Preto tem 16 anos. E a filha, de 11, chama-se Alegria. Nenhum deles revela tendências para a música. "Tem que ir ao natural, não se deve forçar."
Na fazenda de café, arroz, hortifrútis e algumas cabeças de gado em que Martinho Ferreira nasceu, em Duas Barras, seu pai, Josué, era meeiro. Trabalhava em terra alheia e o dono da terra ficava com metade da produção. Como o fazendeiro adiantava o dinheiro para ferramentas, adubos, sementes, no fim da safra sempre faltava algum para pagar o "financiamento". Honrava então a dívida com a produção, a um preço que o fazendeiro estipulava. Mas seu Josué sabia ler e escrever, ajudava os fazendeiros nos cadernos de rudimentar contabilidade e ainda alfabetizava jovens e adultos. A região entrou em crise - erradicação de cafezais, queda internacional dos preços -, Josué e a mulher, Teresa, juntaram-se aos vizinhos no êxodo para o Rio. Martinho tinha quatro anos, era o do meio entre seis irmãos.
"Está gostando, senhor?", pergunta o maître. "O vinho branco é bom demais, mas acabou. Vamos num tintozinho agora?"
Divulgação/DivulgaçãoEstátua de Martinho da Vila em Duas Barras, onde comprou a fazenda em que nasceu, filho de um meeiro com o apelido de Seu Letrado
Logo está sobre a mesa um encorpado português tinto Cartuxa, de Évora, para acompanhar as postas de bacalhau assado ao forno dentro de azeite extravirgem, batatas coradas, cebola, pimentão, azeitonas e brócolis. Duas aromáticas, gratinadas e generosas porções, suficientes para quatro.
No Rio, só as luzes da cidade vistas do alto da Serra dos Pretos Forros, na chamada Boca do Mato, entre os bairros de Lins de Vasconcelos e Méier, eram a vantagem sobre a vida pobre de Duas Barras. No barraco de zinco onde foram morar também não havia luz elétrica, a água era buscada lá embaixo na bica pública, e para cada dez casas havia uma única "casinha", o lugar onde as pessoas satisfaziam suas necessidades. A chave da casinha ficava na mão de um morador, que só a entregava se o necessitado chegasse já com um balde d'água.
Até os dez anos, Martinho não foi à escola. A ler e contar ele aprendeu em casa com o pai, à luz de velas. Josué trabalhou em vários lugares e Martinho se lembra da Fundição Americana e da fábrica de Papel Engenho Novo, em cujos caminhões ele viajava para buscar a celulose. Foi seu último emprego. Um dia, saiu para trabalhar e não voltou. Suicidou-se.
- Depressão?
- Ele perdeu a guerra... Em Duas Barras, mesmo sendo meeiro, era considerado; as pessoas chamavam ele de Seu Letrado. Veio para o Rio para tentar a vida, não se deu bem. Mas deixou uma carta com instruções para a minha mãe tocar a vida.
Dona Teresa, "analfabeta, mas sábia, uma culta primitiva", tratou logo de pôr Martinho em escola regular. Mas não havia vagas em colégio público e o garoto foi estudar com dona Glória, um típico exemplar daqueles tempos de preconceito e obscurantismo. Professora formada, Glória não conseguia vaga na rede escolar porque, além de muito negra, tinha "uns traços incomuns, olhos esbugalhados; os pais não queriam que seus filhos estudassem com ela". Um político da época ajudou e Glória criou uma escola só para favelados. Ensinava, "e muito bem", apenas português e matemática, pois sabia que os meninos não iriam mesmo continuar os estudos e era o de que precisavam para já começar a trabalhar. Seu curso era de dois anos.
Leo Pinheiro/Valor/Leo Pinheiro/ValorMartinho da Vila no restaurante de Manuelzinho: “Venho tanto aqui que pensam que sou sócio”
História, geografia, desenho, ciências, "moral e cívica" fizeram falta a Martinho quando finalmente conseguiu vaga em escola pública. Já tinha 12 anos, era o mais alto dos alunos do colégio Rio Grande do Sul no Engenho de Dentro. Mas só o aceitaram no segundo ano primário. "Ganhei concursos de português e matemática, ajudava os colegas, e até professoras tiravam dúvidas comigo, mas no resto boiava". Foi terminar o primário aos 15 anos. O garoto ao mesmo tempo trabalhava em uma casa de família - "fazia mandados" -, onde dona Alzira e dona Ida, as patroas, perguntaram o que queria ser. "Mecânico", respondi. "Eu me amarrava no macacão, na caixa de ferramentas, o cara deitado debaixo do carro, cheio de graxa, e sabendo devolver vida ao motor que tinha morrido." "Então tem que fazer um curso profissionalizante", disseram as patroas.
E assim Martinho entrou para o Senai. Mas não como mecânico de automóveis. Tirou 10 nas provas de admissão e lhe disseram que poderia tentar um curso melhor, o de químico industrial, a que só tinham acesso os candidatos com nota superior a 9 (mecânicos, de 8 a 9). "Os amigos disseram 'químico é mais valorizado, é bonito, tem jaleco'. Eu falei 'opa, já gostei'." O diploma do Senai, que ele perdeu - "tantas mudanças de casa, troca de mulher..." -, dizia: "Martinho José Ferreira, auxiliar de químico industrial, preparador de óleos, graxas, ceras, perfumes e sabões".
Nessa época, já era sambista promissor, estava na ala dos compositores da hoje desaparecida Escola de Samba Aprendizes da Boca do Mato. Aos 13 anos, compôs "Piquenique", um "samba de terreiro". Aos 15, a escola desfilou no segundo grupo com "Carlos Gomes" e, aos 19, com "Machado de Assis", de sua autoria. "Não me achava um cantor, cantores tinham voz poderosa, Orlando Silva, Francisco Alves, Nelson Gonçalves, quando cantavam a veia do pescoço crescia." Só em 1964 foi convidado para a ala de compositores de Vila Isabel, então no terceiro grupo. Seu primeiro samba-enredo na Vila foi "Carnaval das Ilusões", 1967, em parceria com Gemeu. A escola, já promovida para o primeiro grupo, ficou em quarto lugar.
A consagração, porém, foi em 1988, centenário da abolição da escravatura, com um enredo antológico e vencedor: "Kizomba, Festa da Raça". [Samba de Luiz Carlos da Vila, Jonas Rodrigues e Rodolfo de Sousa]. "'Kizomba', para vencer hoje, teria de ser modernizado. Antes, o desfile podia ser mais espontâneo, mas era desorganizado. Hoje o que derruba uma escola é a desorganização, ganha quem errar menos. Mas, quando a escola ganha, o bairro fica em festa, todo mundo se considera dono da escola."
Leo Pinheiro/Valor/Leo Pinheiro/ValorAo sol da Quinta da Boa Vista, o comunista expõe o escapulário de Nossa Senhora: sincretismo
Egressos do Senai com boas notas tinham emprego garantido e, terminado o curso, Martinho foi mandado para o Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército. Mas havia um problema. Precisava de Certificado de Reservista e ele não tinha. As ex-patroas e madrinhas eram amigas de alguém influente no Exército e tudo se resolveu. "Houve apadrinhamento", reconhece Martinho. "No quartel me perguntavam: 'Como é que você veio parar aqui, neguinho?' Fui admitido em algo que chamavam de contingente. Passei três meses no Segundo Batalhão de Carros de Combate e fui para o laboratório. Concluído meu tempo de Exército, 10, 12 meses, seria contratado como funcionário público civil. Mas vi que os cabos ganhavam mais que funcionários com 15 anos de serviço. Por isso engajei. Fiz curso de cabo, de sargento especialista, virei contador. Fui trabalhar no Quartel-General, numa escrivaninha. Lá por 1968, pedi baixa. Essa é minha história militar."
- E como você chegou ao festival da Record?
- Inscrevi a música e esqueci. Morava em Pilares e o único telefone da rua ficava a umas cinco quadras. Um dia, o dono do telefone me disse: "Ligaram da TV Rio e querem que você vá lá". Fui lá e o cara disse: "Bicho, foi um trabalhão te encontrar. Você está concorrendo no festival, sua música foi aceita". E eu: "Ah, legal". "Que legal, pô? Você não vai sair pulando de alegria?" Eu não sabia que o festival era tão importante. A TV Rio era a sucursal da Record no Rio. "Você precisa ir para São Paulo ontem", disseram. "Tá faltando só um cara lá e você é o cara." Eu era sargento. Falei: "Pô, não posso ir..." "Dá um jeito." Falei com o pessoal do ministério, e me autorizaram a ir para São Paulo. Lá o porteiro não queria me deixar entrar: "Todo mundo que devia chegar já chegou, você não leu no jornal? Tá todo mundo dando entrevista adoidado". Enfim, entrei. O problema agora era quem ia cantar a música. A Record escolhia os cantores. Como era um samba, indicaram o Jamelão. Mas ele era estrela das grandes, cantor com orquestra, cantava músicas do Lupicínio. Samba de repicado, partido-alto, não era com ele. Aí eles falaram "o Jamelão diz que tem que conversar com você para mudar o andamento e outras coisas". Eu falei: "Ah, isso não". Faltavam 15 dias para ir ao ar e tudo ao vivo. Aí fui cantar. O Jamelão foi junto, não se acertava com a música e não sabia a letra. A primeira [estrofe] cantei com ele. Depois me virei sozinho... Era a última etapa de classificação, o júri se dividiu e me disseram que perdi por pouco. Até então não tinha gravado nada nem tinha gravadora.
E era o verdadeiro começo, pois a partir daí a história desse cantor e compositor é bastante conhecida. Devagar, devagarinho, Martinho chegou lá.
O almoço começou às 14h15 e às 17h30 o repórter dispensa a sobremesa, pede café e a conta. Martinho, um chope. O garçom traz um "black", chope escuro em copo pequeno em forma taça. E a surpresa: "Seu Manuelzinho mandou dizer que é tudo cortesia da casa". Não adiantou protestar. E o leitor, infelizmente, fica privado do atrativo deste espaço: o total da conta e o detalhamento dos preços do que se comeu e bebeu.

Fonte: Valor

domingo, 19 de junho de 2011

A voz e o silêncio: entrevista com Milton Nascimento

Ele caminha sem pressa pela calçada, mesmo se bastante atrasado para o almoço. Entra tranquilo no Nativo, restaurante de beira de praia na Barra da Tijuca, que frequenta costumeiramente. Ninguém faz alarde com sua presença, como é de praxe no Rio, cidade onde famosos correm no mesmo calçadão que todo mundo. Aproxima-se da reportagem e é cordial, mas não sorri. Vai até o balcão e escolhe uma salada de milho, alface, ervilha, bacon e molho Caesar. Finalmente acomoda-se na mesa que o aguarda no fundo e espera. Não puxa conversa fiada. Milton Nascimento parece confortável no silêncio.
É Paulo Lafayette, seu empresário há dois anos e trabalhando junto há 12, a lançar o primeiro anzol. Comete uma indiscrição proposital ao sugerir que timidez é commodity farta na mesa, referindo-se à confidência da repórter que acaba de conhecer. Milton reconhece a manipulação pela cumplicidade e abre um sorriso generoso - para imediatamente retornar à posição inicial. Busca os olhos apenas de quem conhece - "Paulinho", como chama Lafayette, ou a assessora de imprensa Ana Paula Romeiro. Se acontece de os dois assistentes estarem distraídos com celular, cardápio ou garçom, o músico joga os olhos para o mar. O vento é solar nesta segunda-feira, como na música de Márcio e Lô Borges, dois de seus mais inspirados amigos. Milton vai dizer que fez muitas de suas músicas olhando para aquele pedaço de oceano - mas isso só muito depois.
"Antes eu gostava só de cantar e tocar, mas não de compor. Cantava música dos outros. Até me convencerem que eu tinha que fazer também"
O momento ainda é de silêncio, tão denso que daria para cortar com faca amolada. O homem de "dreadlocks" é Milton Nascimento, não precisa provar nada para ninguém nem facilitar vida de jornalista. A dificuldade é que não dá para iniciar uma entrevista com um dos integrantes do "quarteto de ferro de vertentes masculinas" (ao lado de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque, como cravou recentemente a versão nacional da "Rolling Stones"), perguntando por que ele se chama "Bituca" ou por que usa dois relógios quase idênticos, com a mesma hora, no mesmo pulso. Uma resposta é para buscar no Google e a outra para fazer na despedida. Mas é preciso ter manha, é preciso ter graça com quem soltou a voz nas estradas em 1967 e produziu uma explosão de surpresa e júbilo no Maracanãzinho, em tempos em que no Brasil não era aconselhável soltar a voz em lugar algum.
Neste momento, contudo, quem emocionou a multidão cantando "Travessia" está aqui ao lado, comendo ervilhas.
Hoje é dia de show de Paul McCartney, Milton vai, talvez queira contar ao inglês sobre o lixo ocidental, então é bom correr. A votação do Código Florestal está na cabeça de todos nestes dias, vamos de floresta:
- Conta do Acre? Como foi que você foi parar lá?
Ele faz que sim com a cabeça enquanto pede uma Coca Zero sem limão e picanha grelhada, ao ponto. Está rompido o silêncio. Lafayette vai de atum com crosta e Ana escolhe salmão na grelha. O fotógrafo Leo Pinheiro elege a mesma coisa de Milton, não tanto por ser fã inconteste e mais por estratégia para poder fotografar o prato sem incomodar ninguém. A repórter pensa em se fartar de pão e esquece de fazer o pedido.
Divulgação

Nos tempos do Clube da Esquina

- O negócio é o seguinte: antes eu gostava só de cantar e tocar, mas não de compor. Cantava música dos outros. Até me convencerem que eu tinha que fazer também. Falei: "Bom, vou fazer, mas só se tudo o que eu disser for verdade, a minha verdade. Se não for assim, pra mim não interessa".
O "antes" é amplo em se tratando de quem acaba de guardar os óculos escuros. Passa, por exemplo, pela mágica poderosa que parece tocar o velho Edifício Levy, no centro de Belo Horizonte, no fim de 1963. Por ali viviam, na mesma época, os 11 irmãos Borges, o maestro Wagner Tiso, Milton Nascimento com 20 anos de idade, Beto Guedes ainda mais menino e muitos outros, em um embrião do clube mais famoso da música brasileira. "Antes" também define o tempo de tocar violão e cantar, rabiscando músicas na casa da família Borges, que o adotou como o irmão número 12. Bituca era magro, caladão e histriônico, falava "bicho" à beça e trabalhava como um "datilógrafo danado de colosso", nas suas palavras, nas Centrais Elétricas de Furnas. O retrato dessa fase está no delicioso "Os Sonhos não Envelhecem - Histórias do Clube da Esquina", de Márcio Borges - o "Das Baixinhãns", segundo Bituca.
A transição entre a casa dos Borges e os bares e bailes de Belo Horizonte começa de forma assustadora. Wagner Tiso monta um trio e consegue espaço para tocar, mas Milton tem que assumir o contrabaixo, mesmo sem ter um e sem saber como tocar - e o maluco é que dá certo. O pano de fundo desse início são os filmes de Truffaut e Godard, as canções de Gilbert Bécaud e Nico Fidenco no rádio de pilha, e mais João Gilberto, Maysa, Glauber Rocha. E o Brasil conturbado, em sua faceta mais truculenta e dolorida, já totalmente submerso no regime militar.
"Tem uma coisa que falo de Três Pontas. Você conhece, vamos dizer, 20 músicos. Aí passa dois meses sem ir lá e, quando volta, tem 56 novos"
O "antes" também é a época da glória, do Clube da Esquina, de álbuns antológicos, da parceria com Fernando Brant, das canções que foram a trilha de uma geração. "Fé Cega, Faca Amolada" era o hino de estudantes em explosão de hormônios e rebeldia, "Cais" pedia momentos mais introspectivos. Tem quem prefira "Sentinela" e quem pense que "Paula e Bebeto" é a melhor tradução daqueles dias. "Um Girassol da Cor de Seu Cabelo" era a opção "hipponga" junto com as coisas que a gente esquecia de dizer de "Trem Azul". Vieram os shows com Mercedes Sosa e discos junto a Sarah Vaughan, para citar apenas uma das estrelas do jazz seduzidas pela voz do brasileiro. Milton Nascimento saltava de Três Pontas para o mundo todo. Até hoje tem um megafã-clube no Japão e outro na Noruega ("Não me pergunte como, não sei"). Até o dia de uma consagração especial: Milton havia sido convidado a fazer um show em Copenhague, na Dinamarca. Uma bela hora, foi espiar o cartaz. Estava lá: Miles Davis - jazz; fulano de tal - rock; outro sujeito - blues; Milton Nascimento - Milton. Tudo isso é só uma amostra do que era o "antes".
Agora, diante do prato de bolinhos de aipim, Milton inicia uma longa narrativa sobre a jornada de 18 dias que fez ao Acre, há mais de 20 anos. A aventura começou em São Paulo, quando conheceu alguns índios na casa de amigos. Lembra-se bem do dia em que alguns xavantes começaram a cantar para ele:
- Aquilo mexeu com a minha cabeça. Aí resolvi fazer um trabalho na Amazônia, com índios, seringueiros e ribeirinhos.
Reprodução

ao lado dos pais adotivos, Josino e Lília: qualquer maneira de amor vale a pena

Esse pé na estrada na Amazônia foi no fim dos 80, época em que praticamente ninguém falava dos povos da floresta - a não ser em episódios dramáticos como o do assassinato do líder seringueiro Chico Mendes, quando holofotes de todo o mundo iluminaram a pequena Xapuri e o Brasil meio que acordou para os conflitos na floresta. Milton Nascimento, carreira no topo, decidiu subir o sinuoso Juruá, afluente do Solimões, em barquinho que enguiçava ou sentado longas horas em canoa. Depois, aventurou-se ainda mais, entrando no misterioso rio Amônia. Dormia no "hotel do Macedo", como ele chama o acampamento de madeira e cipó que o guia seringueiro montava nas paradas do grupo - Milton faz uma inflexão na voz toda vez que diz "hotel", como se a palavra ganhasse aspas orais.
- Vocês montavam a rede e dormiam na mata, com todos os barulhos?
- Isso, com todos os sons da floresta.
Era a década das campanhas heroicas. O irlandês Bob Geldof lutava contra a fome na Etiópia produzindo o Live Aid. O inglês Sting se juntou ao cacique caiapó Raoni na batalha contra Kararaô (Belo Monte é sua versão moderna). Quase 50 dos maiores músicos do mundo gravaram "We Are the World" para combater a fome na África. Milton mergulhava na Amazonia, buscando inspiração para suas canções e procurando uma aldeia de índios pouco conhecidos, os ashaninkas. Eles se vestem com roupas longas, fisicamente exibem traços andinos. "É um povo que parece inca", explica.
Milton confessa ser ruim de datas (aconselha a cada um de seus mais de cem afilhados que telefonem no dia anterior a seus aniversários, o informem da data, e ele garante o parabéns no dia certo), mas carrega as lembranças de quem era. Lembra vividamente do pernoite ao lado da casa de um ribeirinho, em noite de lua e estrela. Ou de quando a canoa finalmente se aproximou da aldeia Ashaninka e do menino que surgiu em cima do barranco.
- Ele viu nossas canoas e pulou no rio, nadou bonito pra caramba. Fiquei bobo. Chegou do outro lado, andou floresta adentro e desapareceu.
O menino era Benki ("Benke", na canção que Milton dedicou a ele), filho do cacique e hoje jovem pajé. Uma forte amizade começou ali entre os dois e segue até hoje.
Folhapress

O “quarteto de ferro de vertentes masculinas”, segundo versão nacional recente da revista “Rolling Stones” nas fotos à esquerda: Milton Nascimento, Caetano Veloso, Chico Buarque (foto) e Gilberto Gil

Milton dedica respostas longas a cada questão. É difícil mudar de tema - com delicadeza ele volta ao ponto que pretende falar. Não se enquadra um poeta em uma hora de conversa - quem conduz a entrevista é ele, inclusive no ritmo, na fala pausada, nos longos intervalos. Alguém lembra que o jeito tranquilo do compositor falar remete à maneira que Thelonious Monk tocava. O monstro do blues ia administrando os silêncios, fazendo com que se integrassem à música, que fossem como notas. Suas pausas também tinham ritmo. Milton Nascimento fala como quem faz música.
Sabe-se pouco da vida desse carioca de Laranjeiras que foi se criar nas Gerais. Aos 2 anos, martelava o piano da casa dos avós, um predestinado já em 1942. A mãe de sangue morreu quando ele era pequeno, o pai biológico foi ausente. Milton foi adotado por Lília, a filha da madrinha, moça que havia estudado com Heitor Villa-Lobos. Lília casou-se com Josino, homem que gostava de inventar coisas, era radioamador e amava astronomia. Um telescópio em casa mostrava estrelas e planetas às crianças - influência fácil de perceber nas canções futuras. "Num trem de ferro, a nova família, Lília, Milton e Josino, seguiu para Três Pontas", lê-se no site do músico. O menino ganhou gaita e sanfoninha e passava horas na varanda completando com a voz as notas que faltavam na sanfona. Surgia ali o cantor.
Na casa da Lília e Josino não havia nada a temer, senão o correr da luta. O casal adotou três filhos - Milton, Fernando e Beth. Os dois menores são brancos, mas a família não fez distinção de nada e cuidou de todos com igual carinho. Depois de muito tempo, Lília engravidou e nasceu Jaceline. Cresceram todos no amoroso solar de Três Pontas que exalava perfume de dama-da-noite. Milton anda em bando até hoje. Ao Nativo, que indicou para este "À Mesa com Valor", vai sempre com irmãos, sobrinhos, assessores e quem mais chegar.
Milton quer falar uma coisa, mas não adivinha onde ela anda. De repente, lembra-se:
- Tem uma coisa que esqueci de falar. Quando a gente estava no barco e cruzava uma canoa, eles falavam "Txai". Achei bonito, perguntei ao Macedo o que era aquilo. "Txai quer dizer: mais que amigo, mais que irmão. A metade de mim que habita em ti e a metade de ti que habita em mim". Tudo isso em quatro letras. São mais que poetas. Virou o sentido do disco, o sentido de tudo.
"Txai", o álbum, está fora de catálogo e é difícil de encontrar. Por causa dele, Milton foi à festa do Grammy pela primeira vez, indicado para Best World Music. Ele diz que não queria sair da Amazônia e ao voltar para o Rio ficou 40 dias em choque. Esquece a carne no prato e fala do dia em que quase presenciou um empate, a forma de luta pacífica dos seringueiros de se deitarem no chão impedindo que as motosserras derrubassem as árvores. No caso, eram índios contra tratores. Quando chegou à cena de Avatar, viu índios de mãos dadas e máquinas saindo de cena. Supõe que os desmatadores souberam que ele andava por ali e se mandaram.
Flávio Florido/Folhapress

Milton Nascimento e Gilberto Gil

- Se a gente não está por lá, matam as pessoas. Passam com as máquinas em cima.
Ele come mais um pedaço de carne e a pausa é a deixa para passarmos da floresta a Três Pontas. O disco que acaba de lançar, "... E a Gente Sonhando", foi todo feito com gente de lá. Neste sábado, no Via Funchal, em São Paulo, Milton faz um megasshow, com coral no palco, abrindo nova turnê. Claro, vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser muito tranquilo.
- E esse disco novo, "E a Gente Sonhando"?
Há várias histórias por trás desse álbum bem produzido. A primeira é sobre a canção que dá nome à obra. Foi a segunda composição inteira que fez em sua vida. É a música que Milton fez para a rua Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, a preferida nas andanças daqueles jovens mineiros que queriam mudar o mundo.
- A gente andava por ela, parecia que estava em um sonho. Escrevi até um conto sobre essa rua, mas perdi. A sorte minha é que fiz a música.
Outra história tem a ver com o livro "The Brazilian Sound: Samba, Bossa Nova and the Popular Music of Brazil", de Chris McGowan e Ricardo Pessanha. Os autores fizeram um mapa, uma espécie de raio X musical do Brasil feito pelas capitais. Rio indica samba, Salvador sugere axé e assim por diante. Em Belo Horizonte, um traçado lembrando uma estrada leva a Três Pontas. O livro caiu na mão de Milton, que se surpreendeu.
- Levei um susto. Três Pontas ali, a única cidade mencionada que não era capital. Resolvi ir visitar meus pais e encontrei o Marco [Elizeo], com quem faço música desde criança. Mostrei o livro a ele e falei: Marco, e agora? Como é que vai ser? O Wagner [Tiso] e eu não estamos mais aí. E agora?
Folhapress

O compositor em festival de 1966, em São Paulo: Milton soltou a voz nas estradas em 1967, com seu primeiro disco, “Travessia”

O interlocutor resolveu levar Milton para jantar em um local distante. Chegando lá, foi surpreendido por dezenas de jovens músicos que tocavam rock, faziam "cover" de Pink Floyd e Rolling Stones, arrasavam. No dia seguinte, a mesma coisa, em outra fazenda.
- Lá dentro, na cozinha, que é o lugar preferido dos mineiros, estavam muitos músicos. Tocavam pra caramba. De vez em quando faziam um coro. Isso foi na noite que Marte mais se aproximou da Terra. Lembrei desse negócio e falei "Ihhhh. Marte e Três Pontas, alguma coisa vai dar". E deu.
A cada dia Milton descobria uma cena cultural nova e viva em Três Pontas, com músicos que brotavam pelos cantos. Chamou o povo para uma festa na casa de Jaceline e começou a pensar em gravar uma faixa de um CD seu com aqueles três-pontanos todos.
- Tem uma coisa que falo de Três Pontas. Você conhece, vamos dizer, 20 músicos. Aí passa dois meses sem ir lá e, quando volta, tem 56 novos. Cada vez é assim. Uma meninadinha com tudo.
Em Minas, diz Caetano Veloso no prefácio do livro de Márcio Borges, o caldo engrossa, o tempero entranha, o sentimento se verticaliza. Foi assim com Milton espiando o que acontecia por trás dos montes. A coisa foi tomando corpo, virou um disco inteiro. Escutou novas bandas e descobriu jovens talentos. A maioria dos músicos que toca em seu disco, coproduzido com Marco Elizeo, não tem 25 anos.
Leo Pinheiro/Valor

No Nativo: neste sábado, o cantor faz grande show em São Paulo para iniciar a turnê de seu novo disco

Milton tem pela frente uma fila de espetáculos programados. No dia 24, apresenta-se no Lincoln Center, em Nova York, e no dia seguinte participa do festival de jazz em Montreal, quase 20 anos depois da última vez em que esteve lá. No Brasil, vai abrir o Rock in Rio cantando a segunda parte de "Love of My Life". Na primeira parte quem canta é Freddie Mercury, o mítico vocalista do Queen, em imagens gravadas em 1985.
Ninguém quer sobremesa nem café. Milton atravessa devagar a avenida e comenta que não conhece Paul McCartney pessoalmente. Foi ao show do Beatle em São Paulo e à noite irá de novo. Tem também almoço marcado para o dia seguinte com Antonio Banderas, a pedido do espanhol. "Ele é louco para conhecer o Milton", diz Ana Paula. Quando fez o filme "Imagining Argentina", Banderas ouviu alguém cantarolando uma música no set e se encantou. Era "Maria Maria". Informado de que a canção era de um brasileiro, pegou o telefone e ligou para Milton, que liberou a trilha. Desde então, quer conhecer Bituca e agradecer.
O empresário busca seu carro e para em plena avenida Lúcio Costa, enquanto o fotógrafo procura aproveitar a luz de começo de tarde. Milton está sorridente, mas é sempre indecifrável. Caetano não poderia ter descrito melhor - "sua atmosfera a um tempo celestial e triste, sua aura mística e sexual". Um casal espera o fim da sessão e corre para a tietagem - autógrafo e clique. Lafayette vai se transformando em personagem de Almodóvar. "Chega! Ele tem que descansar!", ordena.
Milton se levanta, alcança a caminhonete e senta-se. Está fechando a porta quando uma mulher surge do meio da rua, gritando seu nome, um papel na mão. "Milton, Milton", repete a esbaforida. "Sou fulana, corretora de imóveis, trabalho aqui na Barra", e arremessa o cartão de visita no colo do compositor, por acaso. Milton vive há muitos anos em uma casa no Itanhangá, perto do Golf Club. Da janela, vê a Pedra da Gávea e a floresta da Tijuca. Diz que mora no Rio, mas tem a vista das montanhas. Ele não parece ter planos de se mudar, mas continua sorridente e intransponível enquanto Paulinho acelera e a mulher arremata com "qualquer coisa que você precisar...". Milton ainda acena, balançando o misterioso braço dos dois relógios.

Fonte: Eu & Fim de Semana - Valor.

domingo, 12 de junho de 2011

Telefonemas de João Gilberto

Por Zuza Homem de Mello

Haverá voz mais nítida que a do canto de João Gilberto? No país tão ligado à sua música popular, quem revolucionou a forma de se cantar canção foi um incansável perseguidor da perfeição.
Embora singelo no indispensável, qualquer espetáculo de João Gilberto é invariavelmente cercado de um temor antecipado, quando não verdadeiro pavor, pelas exigências sempre pertinentes quanto ao aspecto essencial no seu caso: a qualidade do som, que, afinal, pode ser resumida na ampliação de apenas dois microfones, o da voz e o do violão. Nada mais. Com toda razão, João tem sempre a máxima preocupação com que sua voz seja ouvida com nitidez absoluta, independentemente do tamanho ou da capacidade da sala de seus recitais, provavelmente cada vez mais raros agora que atinge os 80 anos, nesta sexta-feira. São anunciados dois em setembro, um em São Paulo, outro no Rio.
Sua justa pretensão é que o som de sua voz chegue aos ouvidos de cada um como se ele estivesse a centímetros de distância, com clareza, limpidez, com definição irretocável e nenhum tipo de artifício que possa afetar a pureza de seu canto. Sem fazer concessões, João respeita a canção sem incutir maneirismos ou malabarismos que coloquem o intérprete acima do compositor. Em última análise, sua meta é dar vida a uma canção com o timbre das suas cordas vocais e as de seu violão.
Alguns não conseguem entender, mas João vive durante a noite para sua música, tocando violão por horas e horas a fio até hoje, com a mesma determinação e mesmo apuro que tinha com a metade de sua idade atual.
Para João Gilberto, o telefone não é para dar ou receber recados, é o seu meio preferido e mais constante de comunicação pessoal
O mesmo rigor com a emissão vocal quando canta se percebe nos decantados telefonemas, também sempre a altas horas da noite. Ouvir João Gilberto falar é outro tipo de prazer para ouvidos musicais exigentes. Não se perde uma vogal ou consoante. Não é só que ele canta como quem fala; João também fala como quem canta, articula cada palavra com dicção tão perfeita que, mesmo sem gritar, nada se perde do que diz, até com o fone descolado do ouvido.
Seus amigos dos anos 50 dão conta de sua constante preocupação em ser ouvido com perfeita clareza, independentemente da distância. Ronaldo Bôscoli contava que João saía do apartamento caminhando pelo corredor e distanciando-se aos poucos, enquanto emitia o mesmo som, indo cada vez mais longe para avaliar até que ponto poderia ser ouvido nitidamente sem necessidade de alterar o volume de voz. Sua preocupação com a emissão de voz foi sempre uma constante exercitada exaustivamente.
O sotaque de João Gilberto não é tipicamente o de um baiano, não abrindo em demasia certas vogais; seus "esses" intermediários não soam como "ch" mas são convenientemente sibilados como deve ser o "S", uma letra surda, sem vibração das cordas vocais, um som sussurrado. Na função plural, o "S" nunca deixa de ser ouvido nos finais das palavras e quando tem som de "Z", como em Brasil, João emite um zunido instantâneo com a conveniente vibração das cordas vocais.
Para João Gilberto, o telefone não é para dar ou receber recados, é o seu meio preferido e mais constante de comunicação pessoal. João adora passar horas e horas conversando ao telefone, independentemente da distância geográfica que o separa do interlocutor. A maioria de quem com ele já conversou nunca teve João Gilberto pela frente, esteve inevitavelmente na outra ponta de uma ligação telefônica. Um telefonema seu tem mesmo a função de fazer visitas noturnas sob a forma de diálogos extensos e deliciosos. É como ele gosta de conversar, dissertando sobre os mais diferentes assuntos, quase sempre sem abordar o que todos imaginam ser obrigatoriamente o foco de suas conversas, a música.
A impressionante memória sobre os hábitos de seus interlocutores, o que é simplesmente inacreditável, juntamente com sua surpreendente capacidade de estar sempre atualizado com tudo o que se possa imaginar, contraste gritante com o inabalável recolhimento em que vive, são motivos para extrapolar a admiração por João Gilberto. Para os contemplados por sua simpatia e pela invejada oportunidade de travar um diálogo de horas e horas com o músico considerado genial pelos maiores artistas do universo, um telefonema com João Gilberto é uma experiência.
Muitas vezes, o diálogo é interrompido por um pedido seu para algo que não se sabe exatamente o que é. O intervalo pode ser tão curto, como em regra se aguarda, mas também pode durar o tempo de uma refeição completa, que ele fará com a linha aberta como sendo mais vantajoso do que interromper para ligar mais tarde.
Quanto à variedade de assuntos, em que o futebol é quase sempre o preferido e abordado com conhecimento tático de um técnico profissional, João discorre sobre todos os temas possíveis: pode falar sobre outro esporte exaltando sua admiração por atletas brasileiros; pode descrever o passarinho que recentemente viu infeliz na janela, penalizado com o sentimento de tristeza da avezinha; pode se condoer de uma formiguinha esmagada por acaso; pode descrever com precisão o que está acontecendo de mais relevante na cidade do interlocutor; pode cantarolar trechos de velhas canções ou criar sons onomatopaicos de assombrosa originalidade. E se, por acaso, o assunto música vier à tona, João não consegue segurar sua empolgação sem limite, sua fé no futuro dos músicos, compositores e cantores, revelando um sentimento de brasilidade contagiante.
Um novo círculo de amigos de João Gilberto acredita piamente estar se comunicando com ele através do teclado, via um facebook que existe com seu nome. Pode ser, mas é difícil. Se for verdade, estão perdendo o elemento fundamental da comunicação que João Gilberto usa desde quando caminhava lado a lado com músicos por Copacabana, convencendo-os das ideias que tinha sobre a canção brasileira. Quando falava sobre o ritmo, a leveza da interpretação e, inconformado com os infortúnios dos amores que dominavam as letras das canções da época, insistia que se fizesse letras positivas, falando de coisas belas sobre o amor. Esse elemento fundamental, que não existe na comunicação via net, é sua voz.
Essa voz sedutora, convincente, que se expressa em depurada forma do idioma português do Brasil, é o meio de João Gilberto se comunicar com seu estranho, indefinido e imensurável círculo de privilegiados conversadores telefônicos. Essa voz clara e precisa, tal como a batida de seu violão, soa viva pelo telefone nas altas madrugadas. Vem com a marca indelével que cerca a fascinante música de João Gilberto: o inesperado.

Fonte: Valor Econômico - Eu & Fim de semana.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Músicas da banda paraense La Pupuña na web

Boas novas aos que curtem a banda paraense La Pupuña: a Rádio Uol está disponibilizando as músicas do álbum All Right Penoso!!!.

Só clicar no link La Pupuña Rádio Uol

Não tem a versão da banda da música Gererê, mas tá valendo.

Eis o Gererê.

Abraços!

domingo, 20 de março de 2011

E assim é o samba...

Um pouco de samba para alegrar a semana de todos.

As músicas dos sambistas abaixo são obrigatórias nas vitrolas que prezam por um bom ziriguidum.



sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Viva Noel Rosa!

Se vivo estivesse, Noel Rosa completaria 100 anos neste 11 de dezembro de 2010.

Noel partiu muito jovem, com apenas 26 anos, mas nos deixou uma obra de tamanha beleza que só suas canções são capazes de representar. 

Postamos abaixo um vídeo que relata um pouco da vida e obra de Noel Rosa e, em seguida, outros vídeos com músicas para relembrar um pouco de sua obra.




Eu hoje estou pulando como sapo, pra ver se escapo desta praga de urubu.
Já estou coberto de farrapo, eu vou acabar ficando nu.
Meu paletó virou estopa e eu nem sei mais com que roupa
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?



Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago.
Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago.
Não po-posso com a cru-crueldade da saudade.
Que que mal-maldade, vi-vivo sem afago.


Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada,
Um pão bem quente com manteiga à beça,
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Quem canta, seus males espanta

Depois de um dia corrido, uma boa música vai bem.

Um bom vinho também é boa pedida para hoje. Aos que gostam (tô na lista!), desguste-o com moderação!

Geraldo Azevedo (Dona da minha cabeça), Alceu Valença (Girassol) e Zé Ramalho (Avohai) para vocês.




quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Ele é o cara do blues: BB King

Aos amantes do blues, eis um pouco de BB King em ação.

Aos que ainda não conhecem, eis uma excelente porta de entrada no mundo fascinante do blues.

Para começo de conversa: The thrill is gone.
Depois o mestre dá um um show com sua guitarra Lucille (simplesmente magnífico!). 
Nobody loves me but my mother, um vídeo mais antigo, também é outra pérola.
O quarto vídeo apresenta Sweet little angel.

No site do mestre do blues, ainda na ativa com seus 85 anos, informações sobre discografia, história do cantor e agenda de shows, entre outras coisas.

"Time has no apparent effect on B.B."





segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Salve, Adoniran!

De tanto levar frechada do teu olhar
Meu peito até parece sabe o quê?
Quem nunca ouviu o trecho acima do grande João Rubinato?
João o quê? Bem, este é o nome verdadeiro do saudoso Adoniran Barbosa.
Tiro ao Álvaro e outras tantas músicas do mestre seguramente têm lugar garantido nas vitrolas que melodiam samba por aí.
Aos sambistas de plantão, o que dizer de Saudosa Maloca, Trem das Onze, Joga a Chave (uma das minhas preferidas), As Mariposas, Apaga o Fogo Mané etc.? Só musgão, não! É sempre bom recordar de coisas boas.

Postamos a seguir cinco vídeos que fazem parte de um documentário produzido pela TV Cultura em 2008, intitulado Mosaicos – A Arte de Adoniran Barbosa. Vale a pena conferir!







Forte abraço a todos!